29 de dez de 2014
Após 5 anos do lançamento de Leite Derramado, Chico Buarque apresenta, pela Companhia das Letras O irmão Alemão. Descobriu que tinha um meio irmão aos 22 anos, quando estava com Vinícius de Moraes e Tom Jobim na casa de Manuel Bandeira. Depois de muitos anos, Chico decide escrever sobre, e quando não pôde mais escrever com as informações que tinha, deu-se início a uma pesquisa por parte do historiador João Klug e pelo museólogo alemão Dieter Lange.
O que lemos numa edição de pouco mais de 200 páginas de uma capa vermelho vibrante, no entanto, não é uma contação dessa história verdadeira. Ao menos não completamente.

O irmão alemão é um livro rápido, fluido a um ponto líquido no qual não distinguimos se o narrador conta a verdade, se delira ou sonha. O enredo em prosa ficcional com detalhes 'realistas' como as correspondências entre "Sergio de Hollander" e o governo alemão, só reforça a sensação de sonho lúcido ou estado de embriaguez constante da obra.
Sergio Buarque de Holanda passou por Berlim entre 1929 e 1930 como correspondente de "O Jornal". Teve um romance com uma alemã e um filho que nasceu em 1930. Devido à pesquisa para identificar e conhecer mais a história desse filho, Chico consegue tamanha riqueza de detalhes para tornar tudo que ele sabe sobre o meu irmão um conto fantasioso acreditável. Sua capacidade de fazer sua própria história um relato bem humorado e cheio de pensamentos não muito santificados (como eles são, na realidade, convenhamos) lhe cai bem e é o que fundamenta sua obra.

Tal qual em suas músicas, neste livro Chico traveste a  vida de estória, humoriza o cotidiano, fantasia, beirando a fraude, de estereótipos os personagens (sua mãe italiana que vive na cozinha e falando 'mamma mía'), faz bookporn/fetiche com os livros da grande biblioteca que era sua casa, humaniza relacionamentos... desde o com seu amigo Ariosto, passando pela inveja quase velada pelo irmão mulherengo, até os daddy issues com seu pai, um dos maiores historiadores e intelectuais do século passado.
Gostei de ter lido esta obra e, como primeira de Chico que leio, espero que o restante consiga agradar também.

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