19 de fev de 2012

Título original: We need to talk about Kevin
Tradução: Beth Vieira e Vera Ribeiro Editora: Intrínseca
Autor: Lionel Shriver
ISBN: 978-85-8057-150-9
2012, edição especial capa filme, 464 páginas


Sempre fui interessada em ler “Precisamos falar sobre o Kevin” por que a capa original me atraiu desde o lançamento; a edição especial com capa do filme é até simplória e bonita, mas a original tem meu coração. O desejo de ler esse livro permaneceu e ficou mais forte quando li a sinopse:
Para falar de Kevin Khatchadourian, 16 anos – o autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio dos subúrbios de Nova York –, Lionel Shriver não apresenta apenas mais uma história de crime, castigo e pesadelos americanos. Arquitetou um romance epistolar em que Eva, a mãe do assassino, escreve cartas ao marido ausente. Nelas, ao procurar porquês, constrói uma reflexão sobre a maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de um pequeno monstro. Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série e pitboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem matou, mas o que morreu. Enquanto tenta encontrar respostas para o tradicional “onde foi que eu errei?” a narradora desnuda, assombrada, uma outra interdição atávica: é possível odiarmos nossos filhos

A bem verdade, sou fã de livros, músicas, filmes, peças de teatro, dança ou qualquer manifestação artística que falem sobre distúrbios psicológicos, de construção ou desconstrução de uma mente genial ou maligna; das tentativas de explicar o que leva uma pessoa a se matar ou matar outrem, por exemplo. Só pra citar alguns exemplos que me chamam a atenção no contexto: o seriado Dexter (serial killer), o filme Black Swan (thriller psicológico), por que não dizer, o Dr. House (por que se ele não é uma pessoa irônica e sarcástica totalmente afetada pela vida, o que sou eu, God?) e, agora, o meu querido Kevin Katchadourian, KK.
Explorar o lado obscuro dos personagens e, como diz Tyrion, gostar dos “cripples, bastards and broken things” parece ser uma parte já inseparável de mim. Portanto uma das coisas que você precisa saber sobre essa leitura é que ela não é para todos. Nem todo mundo gosta de narrativas densas e angustiantes na qual uma mãe parece odiar o filho que acabou de sair de dentro dela após um trabalho de ‘não-parto’ de 37 horas em que ela parecia resistir à vinda do bebê. Nem toda mãe leitora dessa obra de Lionel Shriver vai concordar que a maternidade, talvez, não seja tão mágica quanto parece. E isso não soa feminista, nesse caso. Eu concordo com muitos dos pontos negativos de ser mãe citados por Eva. A questão é que ela em alguns momentos quer ter um filho por que está “entediada” com seu modo de viver. Ela acreditava que iria passar por todas as experiências incríveis que a maternidade traria ‘de graça’ para sua vida.  Se a ‘loucura’ de Eva se resumisse a isso, daria pra passar. Mas depois ela simplesmente não quer ter um filho e começa a se odiar por estar grávida e sentir medo de não poder amar seu filho como deveria, de não ser uma mãe normal.
Acabou que esse medo todo veio à tona em forma de Kevin.
O guri era, sem dúvidas, malvado. Entenda a intensidade da palavra que empreguei: eu não disse que ele era detestável (apesar desse adjetivo ser mais impactante), por que eu não detestei Kevin. Desde que nasceu, Kevin, assim como Eva, parece pressentir que ele e a mãe tem algo pra resolver. Totalmente dissimulado, o garoto é um rapazinho aparentemente normal e feliz quando o pai, Franklin, chega em casa. Mas quando tem que passar momentos a sós com Eva, é o Kevin que finge que não sabe falar nem ir ao banheiro sozinho que aparece. Aquele que parece querer dizer à mãe que ela é uma inútil até para lhe ensinar o que vem depois do 3.
Não se enganem. O pequeno Kevin é um gênio. Quando ficava entediado com as atividades que a mãemãe o fazia repetir, simplesmente contava de 1 a 100 ininterruptamente pra acabar com as coisas bestas mais rápido.
Sei que essa resenha, agora, devia tomar o rumo de como a história de Lionel pode fazer você querer jogar o livro pela janela, mas tenho que dizer mais uma coisa: sei que a narrativa de 1ª pessoa com Eva pode deixar a gente um pouco “no cabresto” com relação à maldade inata de Kevin, mas acho que faltou um pouco de empenho por parte dela, sim. No fim, mãe e filho não são iguais só na aparência. Necessitavam da atenção um do outro e a história é de amor e ódio dos dois, além de tudo.
A linguagem utilizada por Lionel não é a que estamos acostumados a ler nem nos Best-sellers, quanto mais nos correntes YA books e romances mais contemporâneos. Não é nada como clássicos de 100 anos atrás, mas temos uma pancada de palavras que, confesso, não soube o significado nem no contexto, só conseguia distinguir se era negativa ou não. A tradução não tinha como não deixar algumas características da história passarem, uma vez que algumas coisas só podiam fazer o total sentido se estivessem na língua inglesa; mas mesmo assim, os trabalhos de tradução e revisão foram realmente muito bons.
Sendo narrado por Eva em missivas ao ausente Franklin, acredito que não fosse tão praticável a ambientação que ela fazia das memórias, como se Franklin também não tivesse estado lá. É claro que nós, leitores, precisamos de mais detalhes e explicações, mas Franklin era o marido dela, afinal, muitas daquelas coisas não eram tão segredo assim pra ele. Isso só não chega a ser um ponto negativo por que a finalidade das cartas não foi atingida (e isso é tudo que posso dizer), então foi mais como um desabafo pra ela mesma que para Franklin.
Reconheço que algumas partes foram “previsíveis”, mas a construção de Kevin e as maldades dele foram provas extremamente deliciosas de se admirar na obra de Shriver. Não me tomem como doente, quem for ler este livro também o contemplará tanto quanto eu se gostar dos aspectos de psicologia e do lado obscuro da alma humana como já disse anteriormente.
Depois de ler a última linha das 464 páginas de Precisamos falar sobre o Kevin, talvez você, como eu, não se sinta totalmente convencido. Mas também não ia querer se sentir. É a estranheza do quase final feliz que deixa a gente se remexendo pra querer falar sobre o Kevin depois. Muito recomendado. Cinco estrelas e favorito para um Best seller diferente, e talvez por isso, muitíssimo bom.
Ah, assistam ao filme, também! SHOW.
Desculpem a resenha quilométrica, mas ainda não fiz jus ao livro.


Criada numa família extremamente religiosa, Lionel Shriver já havia publicado seis romances antes do best-seller Precisamos falar sobre o Kevin. Este, que foi recusado por trinta editoras, rendeu-lhe o Prêmio Orange, na Grã-Bretanha, em 2005, concedido apenas a escritoras.Colunista do jornal The Guardian, ela também já colaborou para The Wall Street JournalThe Independent The Economist. Viveu em Nairóbi e Bangcoc, mudando-se depois para o Reino Unido. Passou doze anos em Belfast, na Irlanda do Norte, e oito em Londres, onde mora.

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