23 de ago de 2011
Todo mundo tem em sua consciência um erro cometido do qual se arrepende muito e julga imperdoável. Bom, pelo menos eu acho. O de Brioni Tallis aconteceu no início da adolescência e teve proporções catastróficas nas vidas de pessoas que ela amava: sua irmã Cecilia e Robbie Turner, filho de uma de suas empregadas. Resumindo em poucas palavras, esta é a idéia central de Desejo e Reparação (Atonement, 2007), adaptação do romance escrito por Ian McEwan.
Em seu segundo longa-metragem, o cineasta Joe Wright mostra que está amadurecendo o talento já demonstrado na estréia, Orgulho e Preconceito. Além de compor muito bem o mise-en-scène, com figurinos, cenários e câmeras nos locais certos, ele consegue extrair do elenco ótimas atuações, que já coloca seus atores na lista de possíveis indicados ao Oscar. Para o papel de Cecilia ele escollheu Keira Knightley, com quem já havia trabalhado no seu primeiro filme. Seu parceiro de cena é o escocês James McAvoy, que vem se confirmando como um dos astros em ascendência. Mas o papel mais importante é o de Brioni, interpretado em três momentos distintos por Saorsi Ronan, Romola Garai e Vanessa Redgrave.
As três atrizes separam não apenas momentos distintos da personagem, mas também da história. Quando a conhecemos, no quente verão de 1935, ela é nova, prepotente e mimada. Anda a passos rápidos, fazendo ângulos retos e gasta o tempo livre escrevendo peças ou livros. Ela tem uma paixão secreta por Robbie, rapaz mais velho, que por sua vez é apaixonado por Cecilia e correspondido, e da inocência da pequena vem o tal erro.
O tempo passa, a Segunda Guerra Mundial começa e o remorso de Brioni se torna uma ferida muito maior do que qualquer bomba. É neste perído que a dramaticidade cresce e Wright concebe uma das cenas mais bonitas que os cinemas exibira (na minha humilde opinião, Samuely, um SHOW de fotografia): Robbie e dois colegas soldados chegando à praia de Dunkirk e presenciando a calamidade provocada pela guerra. Para realizar a cena, foram utilizados mais de mil extras e outras 350 pessoas trabalharam nos bastidores. São intermináveis minutos sem corte, que, não vou mentir, me fizeram chorar. No terceiro ato, a premiada Vanessa Redgrave fecha a história com uma participação pequena, mas intensa.
Wright, apesar de ter trabalhado duas vezes em filmes de época, não se prende aos maneirismos no gênero e arrisca não só na narrativa, que apresenta visões diferentes para cenas específicas, mas também no uso da trilha sonora e edição de som, que trabalham juntos e fazem com que os barulhos do filme se encaixem na música e aumentem a tensão. Mas se você não se preocupa com estes detalhes técnicos e quer apenas curtir um bom filme, tudo bem também. Alguém tão preocupado com os detalhes não vai descuidar do elemento principal, a história. Mas vá avisado Desejo e Reparação não está na lista dos dramas de época, de guerra ou romances convencionais. Depois não venha botar a culpa em mim. Já tenho problemas demais na minha consciência.
Adaptado de Marcelo Forlani em Omelete. E concordo!
Assistam ao trailer:

Oscar 2008 (EUA)
Indicado a Melhor Filme
Indicado à Melhor Atriz Coadjuvante (Saoirse Ronan)
Indicado ao Melhor Roteiro Adaptado (escrito por Christopher Hampton e baseado no livro de Ian McEwan)
Indicado Melhor Fotografia (Seamus McGarvey)
Indicado Melhor Direção de Arte (Sarah Greenwood e Katie Spencer)
Indicado ao Melhor Figurino (Jacqueline Durran)
Vencedor da Melhor Trilha Sonora (Dario Marianelli)
Globo de Ouro 2008 (EUA)
Vencedor do prêmio de melhor filme dramático


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